Há pouco tempo, parei numa daquelas rotundas intermináveis algures na província francesa e deparei-me com uma imagem que, há poucos anos, teria sido impensável. À esquerda, erguia-se a velha chaminé industrial de uma fábrica encerrada, enferrujada, vazia e algo melancólica. À direita, um parque eólico brilhante girava sem sobressaltos, com as pás a cortar o ar, enquanto, mais atrás, se estendia um mar de painéis solares sobre antigos campos de milho.
Entre estes dois mundos passou uma carrinha de entregas com a inscrição «Transição energética – obras em curso». A França está a construir uma nova identidade. E o ritmo está a acelerar de forma brutal.
O Governo pretende triplicar, em tempo recorde, a capacidade de energias renováveis, como se o país pudesse transformar-se, com um simples toque, num líder europeu da transição verde.
Enquanto umas turbinas ganham velocidade, outras começam a falhar.
A tensão sente-se quase fisicamente.
França acelera a fundo nas energias renováveis - e todos têm de acompanhar
Quem atravessa o país percebe depressa que esta não é uma transformação discreta. É uma corrida. Surgem turbinas eólicas por toda a parte, aparecem coberturas solares nos parques de estacionamento dos supermercados e os noticiários acumulam anúncios sobre gigantescos parques eólicos offshore ao largo da costa atlântica.
A mensagem vinda de Paris é inequívoca: a França não quer continuar a ser o gigante nuclear adormecido, mas sim uma das economias verdes europeias com melhor desempenho.
Fala-se em triplicar a capacidade renovável em menos de dez anos. Há uma palavra que domina tudo: aceleração.
No papel, parece uma história de sucesso; no terreno, a realidade é mais complexa. Sobretudo para aqueles que terão de suportar a factura.
Na Bretanha, um padeiro contou-me que a sua conta de electricidade aumentou quase 60% em dois anos. Ao mesmo tempo, a aldeia onde vive assemelha-se cada vez mais a uma montra da transição energética: novas turbinas eólicas, um projecto-piloto de armazenamento em baterias e cartazes de apoio na mairie.
Ri-se por instantes, mas sem alegria: «A transição energética está em todo o lado - menos na minha factura.»
Os dados oficiais reforçam esta sensação. Em 2023, a pobreza energética em França afectava cerca de 12% dos agregados familiares: vários milhões de pessoas incapazes de aquecer devidamente a casa durante o inverno.
Em paralelo, os grandes grupos empresariais anunciam investimentos de milhares de milhões na indústria verde: electrolisadores, fábricas de baterias e centros de dados que exibem o selo da «electricidade verde».
À primeira vista, o país está em expansão. À segunda, percebe-se que nem todos conseguem carregar este crescimento com a mesma facilidade.
Do ponto de vista económico, o plano parece uma libertação. Menor dependência das importações fósseis, maior atractividade para os investidores e emprego em sectores do futuro: esta é a grande narrativa.
O Governo aposta na rapidez, com licenciamentos simplificados, concursos de grande dimensão para energia eólica e solar e milhares de milhões para reforçar a rede. A França quer subir rapidamente no ranking das estrelas europeias do crescimento.
Mas cada gigawatt ligado à rede exige linhas eléctricas, armazenamento, compensações e subsídios. E alguém tem de pagar.
Parte da conta cabe aos contribuintes, outra parte aos consumidores de electricidade e outra ainda aos municípios, que disponibilizam terrenos e suportam infra-estruturas.
A aceleração verde cria vencedores, mas também perdedores silenciosos, que raramente surgem nos estudos de apresentação irrepreensível.
O custo social da aceleração verde em França
Vista de forma estritamente racional, a estratégia faz sentido. A energia fóssil está mais cara, o preço do CO₂ aumenta e os riscos climáticos custam milhares de milhões. Por isso, é preciso avançar depressa com energia eólica, solar, redes e armazenamento.
É verdade que a França dispõe do seu parque nuclear, mas os reactores estão envelhecidos e tanto a renovação como a construção de novas unidades absorvem somas gigantescas. Ao mesmo tempo, a procura de electricidade dispara com a mobilidade eléctrica, as bombas de calor e a digitalização.
O país necessita de novas capacidades limpas - e precisa delas depressa.
Em termos políticos, a orientação do Pacto Ecológico parece uma forma de reinventar o crescimento: mais verde, mais digital e mais escalável.
A questão difícil é apenas esta: quanta fricção social se está disposto a aceitar em troca desta velocidade?
Para os agregados familiares que não querem ficar pelo caminho, vale a pena olhar com pragmatismo para o quotidiano. Primeiro nível: reduzir o consumo antes de pensar em alta tecnologia. Aquecedores eléctricos antigos, termoacumuladores que consomem demasiado e frigoríficos muito velhos são destruidores discretos do orçamento.
Segundo nível: a tarifa. Muitos agregados permanecem há anos no mesmo contrato-padrão, apesar de as tarifas dinâmicas ou com preços variáveis poderem ser mais económicas, desde que sejam utilizadas com algum critério.
Terceiro nível: investimentos pequenos e realistas. Medidas simples de isolamento, termóstatos inteligentes, extensões com interruptor e uma máquina de secar roupa com bomba de calor em vez do velho monstro. Nada disto salva o mundo, mas altera de forma mensurável a factura mensal.
Quem espera pela grande solução política costuma pagar durante mais tempo do que gostaria.
Como reduzir a factura de electricidade durante a transição energética
Um erro frequente é deixar-se paralisar pela avalanche de ofertas e programas de apoio. Existem contratos solares, subsídios para isolamento, benefícios fiscais e apoios municipais - e muitas pessoas desistem mentalmente logo perante o primeiro formulário.
Uma abordagem mais realista é avançar com um único projecto por ano. Este ano, talvez o telhado ou as janelas; no próximo, o sistema de aquecimento; depois, uma instalação fotovoltaica ou um módulo de varanda. São passos pequenos, mas que acabam por se acumular.
Há ainda uma componente emocional: a culpa. Entre o choque dos preços da electricidade e as notícias sobre o clima, muitas pessoas vivem numa espécie de stress permanente.
Aqui, a honestidade ajuda. Não deixe que lhe digam que tem de se tornar, em dois anos, num agregado familiar perfeito e de emissões zero.
Valorize cada ponto percentual que conseguir reduzir e aceite que não pode corrigir, através da sua factura de electricidade, todos os desequilíbrios políticos.
«A transição energética não pode ser um projecto de luxo para as metrópoles, enquanto as regiões rurais apenas vêem as turbinas eólicas e pagam as facturas», afirma uma presidente de câmara do nordeste com quem falei ao telefone.
O que ela enumera repete-se em muitas aldeias espalhadas pelo mapa:
- Parques eólicos que surgem sem criar emprego real a nível local
- Residentes que se queixam das sombras projectadas e do ruído
- Municípios divididos entre receitas de arrendamento e protestos dos cidadãos
- Agregados familiares que, apesar da «revolução verde», quase não sentem alívio
- Jovens que partem para novas zonas verdes ou grandes cidades em busca de empregos mais bem pagos
A verdade, dita sem rodeios, é que a transição energética francesa é neste momento uma enorme experiência em curso. Muita coisa resultará; alguma falhará de forma espectacular.
A questão é saber se o país conseguirá conduzir esta mudança de modo a que as pessoas não sejam apenas objectos da transição, mas participantes activos.
E se teremos coragem para falar dos perdedores enquanto celebramos os vencedores brilhantes.
| Ponto-chave | Pormenor | Valor acrescentado para o leitor |
|---|---|---|
| França triplica a capacidade de energias renováveis | Expansão maciça da energia eólica, solar, das redes e da indústria verde | Compreender porque o país se tornou subitamente um corredor climático |
| Custos ocultos do boom verde | Aumento das facturas de electricidade e pressão sobre agregados familiares e municípios | Enquadrar melhor a situação pessoal e interpretar o debate político |
| Medidas concretas para o quotidiano | Reduzir o consumo, verificar tarifas e investir de forma gradual | Estratégias aplicáveis de imediato para não ser atropelado pela transição |
Perguntas frequentes:
A electricidade em França ficará inevitavelmente mais cara devido à transição energética? Não, não necessariamente de forma permanente. A curto prazo, os investimentos, o reforço da rede e as perturbações do mercado elevam os preços. A longo prazo, as energias renováveis de baixo custo e redes mais eficientes podem estabilizar ou reduzir os custos, consoante a qualidade das políticas e da regulação.
Os agregados familiares mais pobres beneficiam realmente da transformação verde? Até agora, apenas de forma limitada. Existem apoios e tarifas sociais, mas são frequentemente difíceis de aceder. Quem tem menos recursos vive mais vezes em habitações mal isoladas e quase não consegue investir em eficiência. É precisamente aqui que se decide se a transformação será socialmente justa ou não.
Ainda vale a pena instalar painéis solares próprios em França? Muitas vezes, sim, sobretudo para quem tem telhado próprio e consumo médio. A rentabilidade depende da região, dos apoios, do autoconsumo e dos custos de ligação. Os módulos de varanda são uma opção acessível para ganhar experiência e reduzir um pouco a factura.
O que acontecerá às indústrias tradicionais do país? Muitas enfrentam uma pressão intensa: preços de energia mais elevados, exigências climáticas e concorrência de unidades industriais mais modernas no estrangeiro. Algumas serão reconvertidas com subsídios verdes; outras desaparecerão sem grandes manchetes. Em certas regiões, isso deixará marcas profundas.
A França pode mesmo tornar-se uma das principais economias verdes da Europa? Do ponto de vista técnico e económico, sim: existem condições para isso, desde o conhecimento especializado aos terrenos disponíveis e ao parque nuclear já instalado. A dúvida permanece no plano político e social: será possível transformar o país sem o dividir? É por aí que o sucesso será avaliado no final.
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