Ao longo dos últimos vinte anos, os incêndios florestais extremos duplicaram tanto em frequência como em intensidade. Uma evolução preocupante, evidenciada por um estudo publicado recentemente.
As chamas que devastam as florestas transformaram-se num verdadeiro flagelo, agravando-se ao longo das duas últimas décadas. Uma análise recente, publicada em 24 de junho de 2024 na revista Nature Ecology & Evolution, baseada em mais de vinte anos de observações por satélite, revela uma realidade alarmante: a frequência dos incêndios extremos duplicou entre 2003 e 2023. Este aumento vertiginoso, estreitamente associado ao aquecimento do planeta, levanta sérias preocupações sobre os seus efeitos no ambiente e na saúde.
As consequências deste fenómeno, profundamente devastadoras, reforçam a urgência de responder a uma ameaça crescente que consome literalmente os espaços naturais e põe em causa o equilíbrio ecológico.
A escalada alarmante dos incêndios florestais
Os dados deste estudo traçam um retrato particularmente inquietante da evolução dos incêndios florestais. Ao examinarem detalhadamente cerca de 2 900 grandes incêndios ao longo de mais de duas décadas, os investigadores recorreram a observações por satélite para medir a respetiva potência radiativa.
Este indicador corresponde à quantidade de energia emitida sob a forma de radiação eletromagnética, sobretudo luz infravermelha. É medido em watts por metro quadrado (W/m²): quanto mais elevado for, mais intenso será o incêndio e maior será o calor libertado. As conclusões são inequívocas: entre 2003 e 2023, estes incêndios devastadores mais do que duplicaram, registando um aumento impressionante de 2,2 vezes.
Calum Cunningham, ecólogo da Universidade da Tasmânia e principal autor do estudo, não esconde a surpresa perante esta progressão alarmante. «Esperava um aumento, mas esta taxa de crescimento alarmou-me», explica. Ainda mais preocupante é o facto de a intensidade acumulada dos incêndios mais violentos ter registado um crescimento exponencial, acelerando de forma fulgurante desde 2017.
Poderia pensar-se que esta subida afeta sobretudo as florestas localizadas em regiões secas, mas não é isso que acontece. Os ecossistemas mais afetados por este recrudescimento são, sem dúvida, as florestas temperadas de coníferas e as vastas zonas boreais.
Por exemplo, no oeste dos Estados Unidos, os incêndios que atingem coníferas multiplicaram-se por onze, o que corresponde a uma subida de 1 000%. Já nas florestas boreais, que se estendem do Alasca ao norte do Canadá e até às regiões mais remotas da Rússia, os incêndios extremos aumentaram sete vezes (600% de aumento). Estes habitats, naturalmente propensos ao fogo, estão agora mais vulneráveis a condições climáticas cada vez mais secas e escaldantes, agravadas pelo aquecimento global.
O ciclo de retroação do aquecimento climático
O aquecimento climático é o principal catalisador do aumento dos incêndios devastadores. Ao tornar a atmosfera mais seca e quente, cria condições favoráveis à propagação dos incêndios florestais. Cunningham declarou à AFP: «Os efeitos das alterações climáticas já não pertencem ao futuro e estamos hoje a ver os sinais de uma atmosfera que seca e aquece». Estas condições não apenas favorecem o aparecimento dos incêndios, como também intensificam a sua violência e prolongam a sua duração.
Quando uma floresta arde, o incêndio liberta quantidades gigantescas de dióxido de carbono, alimentando um círculo vicioso. A vegetação, que habitualmente funciona como sumidouro de carbono, passa a ser uma fonte de emissões ao arder. Este é o efeito de retroação: o aquecimento climático alimenta os incêndios, que, por sua vez, intensificam o fenómeno.
Consequências catastróficas dos megaincêndios
Para além da catástrofe ecológica, estes megaincêndios têm efeitos alarmantes na saúde. A poluição do ar que provocam constitui um importante fator de mortalidade prematura. Em 2015, os incêndios na Indonésia provocaram um excesso de mortalidade de 100 000 pessoas. As colunas de fumo, carregadas de partículas finas e substâncias químicas tóxicas, podem poluir o ar num raio de centenas de quilómetros, causando graves doenças respiratórias e cardiovasculares.
Estes incêndios devastadores também perturbam profundamente os ecossistemas e as economias locais. A biodiversidade entra em colapso, os solos degradam-se e os habitats naturais desaparecem. A redução da cobertura florestal diminui a capacidade de absorção de CO2, acentuando o aquecimento climático. As comunidades locais veem os seus recursos, casas e infraestruturas destruídos, sofrendo prejuízos económicos consideráveis.
A perda de bens e de meios de subsistência pode obrigar as populações a abandonar as suas regiões de origem, gerando fluxos migratórios e dificuldades de integração nas zonas de acolhimento. Os grupos marginalizados e vulneráveis, como mulheres, crianças e pessoas idosas, são frequentemente os mais afetados pelas consequências dos megaincêndios, devido ao acesso limitado que têm a recursos e serviços de apoio.
Em 2019 e 2020, os incêndios na Austrália queimaram mais de 20 milhões de hectares de floresta, causando a morte de 33 pessoas. Em 2021, os megaincêndios que devastaram a Colúmbia Britânica, no Canadá, provocaram danos avaliados em mais de 10 mil milhões de dólares canadianos, destruíram milhares de habitações e levaram à evacuação de dezenas de milhares de pessoas.
A nossa civilização está literalmente a sufocar sob os efeitos destes incêndios, que não param de se agravar. Regiões geográficas antes poupadas enfrentam agora a ameaça do aumento da frequência e da intensidade deste fenómeno. É preciso reconhecê-lo: a situação é mais do que alarmante e exigiria uma ação coletiva urgente. Ignorar estes sinais de alerta é avançar para uma situação ainda mais catastrófica. Porque sim, ela pode piorar ainda mais.
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