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Os ecossistemas de África estão a tornar-se cada vez mais semelhantes

Homem de pé na savana africana observa grupo de antílopes ao pôr do sol, com binóculos e mapa num jipe.

Os ecossistemas de África podem parecer distintos, mas, segundo um novo estudo, estão a tornar-se cada vez mais semelhantes.

Os investigadores concluíram que as redes alimentares de mamíferos africanos se tornam mais parecidas em áreas protegidas com níveis semelhantes de crescimento da vegetação.

A conclusão demonstra que os ecossistemas podem começar a convergir na forma como funcionam, mesmo sem albergarem os mesmos animais.

Padrões em África

Em 127 áreas protegidas, desde regiões áridas até florestas tropicais húmidas, a convergência revelou-se nas relações alimentares que as comunidades de mamíferos podiam sustentar.

Lydia Beaudrot, da Universidade Estatal do Michigan, e os seus colegas registaram esse padrão na organização das redes alimentares locais.

Locais com quantidades semelhantes de vegetação originavam repetidamente estruturas de redes alimentares semelhantes, ainda que as espécies presentes não fossem as mesmas.

Esta descoberta centrou a explicação no funcionamento dos ecossistemas, e não na sobreposição de espécies, levantando uma questão mais profunda sobre o que impulsiona essa estrutura partilhada.

Energia na base da rede alimentar

O crescimento das plantas está na origem deste padrão, pois todos os predadores e herbívoros dependem da energia fixada pela vegetação.

Os ecólogos designam esse recurso por produtividade primária: a velocidade a que as plantas transformam a luz solar em matéria viva que os animais conseguem utilizar.

Quando dois locais produziam volumes semelhantes de vegetação, as suas redes alimentares tendiam mais frequentemente a apresentar o mesmo equilíbrio entre presas, animais que pastam e predadores.

“Em última análise, a quantidade de energia disponível controla a quantidade de vegetação num sistema”, afirmou a professora auxiliar Beaudrot.

Florestas sob pressão

Uma região afastou-se do padrão continental, precisamente nas vastas florestas tropicais da Bacia do Congo.

Em dez locais florestais, níveis semelhantes de fragmentação do habitat - quando o uso humano do solo divide o habitat em parcelas - antecipavam redes alimentares mais parecidas.

Estes locais situavam-se numa região com cerca de 3,6 milhões de km², mas até divisões moderadas coincidiam com alterações semelhantes nas redes.

O resultado indicou que a perturbação humana ali actuava de forma previsível e lançou um aviso mais claro para a conservação.

As mesmas funções, animais diferentes

Os nomes das espécies, por si só, não explicavam o resultado, porque os investigadores compararam as funções nas redes em vez de se limitarem a listas de espécies.

Um leopardo e uma hiena são animais diferentes, mas as redes alimentares podem continuar a assemelhar-se quando os predadores ocupam posições semelhantes.

Esta abordagem tornou o estudo mais útil num continente onde muitos locais partilham funções ecológicas sem partilharem os mesmos mamíferos.

Planos de conservação baseados apenas em listas de espécies podem não detectar essa perda mais discreta de estrutura e função.

O que se perde primeiro

A fragmentação afecta mais do que a área disponível, uma vez que altera quem consegue deslocar-se, caçar, esconder-se e reproduzir-se numa paisagem dividida.

Os grandes mamíferos necessitam frequentemente de territórios extensos, pelo que estradas, explorações agrícolas e povoações podem eliminar primeiro os grandes predadores das interacções locais.

“As áreas protegidas são bastiões cruciais para a conservação”, afirmou Beaudrot, cuja equipa acompanhou alterações nas ligações entre predadores e presas em paisagens oficialmente protegidas.

Quando tipos semelhantes de espécies desaparecem em florestas separadas, os ecossistemas podem começar a funcionar da mesma forma mais limitada.

A protecção tem limites

O estatuto de protecção atenuou parte dos danos, mas não isolou estas comunidades das explorações agrícolas e do desenvolvimento nas zonas envolventes.

A maioria dos locais no Congo continuava a registar pouco uso humano directo do solo, o que significava que pequenas alterações se tornavam visíveis antes de um colapso generalizado.

“Ao mesmo tempo, a fauna selvagem que procuram proteger não é imune aos efeitos da invasão humana”, afirmou Beaudrot.

As fronteiras das áreas protegidas podem manter-se nos mapas, enquanto as relações alimentares no seu interior continuam a mudar, tornando mais difícil avaliar o sucesso.

Limitações do estudo

Ainda assim, o padrão tinha limitações que impediram os autores de alegar possuir uma visão completa da mudança ecológica.

Os seus mapas indicavam onde as espécies estavam presentes, e não quantos indivíduos restavam, pelo que populações em declínio podiam passar despercebidas na análise.

A média da vegetação e do uso do solo ao longo de 20 anos também diluiu choques súbitos que os animais poderão ter sentido de imediato.

Estas lacunas provavelmente tornam o alerta menos acentuado, e não maior, já que as redes alimentares enfraquecem frequentemente antes de as extinções se tornarem evidentes.

O papel dos grandes mamíferos

A questão dos grandes mamíferos era particularmente relevante porque, entre espécies diferentes, estes dispersam sementes, moldam a vegetação, distribuem nutrientes e controlam as presas.

Quando essas ligações se alteram, as florestas podem armazenar carbono de outra forma, as plantas podem regenerar-se de forma diferente e os animais mais pequenos podem multiplicar-se sem controlo.

África oferece uma diversidade rara para acompanhar a transformação das redes alimentares, pois um único continente inclui desertos, bosques e florestas tropicais.

Essa escala permitiu aos investigadores comparar habitats muito distintos sem reduzir a análise a uma única espécie emblemática.

Decisões no terreno

Os gestores não conseguem alterar rapidamente a precipitação ou a luz solar, mas podem abrandar a fragmentação que remodela estas redes.

Manter os blocos florestais ligados, limitar a expansão de estradas e criar zonas-tampão entre reservas e terras agrícolas ajudaria a conservar redes alimentares mais distintas.

A urgência decorre de um risco simples: quando pressões semelhantes eliminam funções diferentes, muitas reservas podem começar a funcionar de forma idêntica.

Um parque pode continuar verde e cheio de animais, enquanto perde o padrão de interacções que lhe confere resiliência.

Este estudo mostrou que os ecossistemas de África podem convergir devido a condições energéticas partilhadas e, nas florestas tropicais, devido a perturbações humanas comuns.

Levantamentos futuros que incluam contagens populacionais e mais grupos de animais deverão mostrar quão cedo começa essa convergência e até que ponto é reversível.

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