Como se alguém tivesse estendido uma alcatifa verde: linhas rectas de árvores, quadrados e desenhos inclinados que fazem lembrar, vagamente, o Minecraft. Ao nível do solo, porém, a sensação é muito diferente. Há agricultores diante de vedações, atrás das quais antigas zonas de pastoreio passaram a contar como «floresta». As valas de água secaram, o vento transporta menos areia, mas também menos esperança. Ouvem-se frases como: «Antes era seco, mas vivo. Agora é verde e morto.»
A Grande Muralha Verde: sonho contra o pó, pesadelo para as aldeias?
À primeira vista, a ideia parece saída de um conto ecológico: a China está a plantar uma «Grande Muralha Verde», com centenas de milhões de árvores para travar um deserto que engole casas, cobre estradas e sufoca cidades em poeira. Já na década de 1970, os responsáveis começaram a desenhar os planos. O objectivo era criar uma enorme faixa verde de Xinjiang até à Manchúria, reflorestar milhões de hectares e erguer uma barreira contra o avanço das dunas do Gobi.
Quem já viveu uma verdadeira tempestade de areia em Pequim entende o alarme. O céu ganha uma tonalidade amarela, o ar sabe a terra, pó de tijolo e metal. Sente-se fisicamente que o território do Norte parece deslizar lentamente para Sul. É precisamente isso que o programa procura combater: usar as florestas como travão. E, sejamos francos, nos diapositivos de PowerPoint a proposta é convincente.
Desde o arranque da iniciativa, foram plantadas mais de mil milhões de árvores; algumas fontes apontam mesmo para vários milhares de milhões. Até o nome «Programa Florestal de Abrigo das Três Regiões Norte» soa a uma ferramenta tecnocrática para todos os fins. As autoridades locais recebem metas a cumprir, enquanto as imagens de satélite servem de prova: a quota de área verde foi ou não atingida? Nas estatísticas, o método funciona surpreendentemente bem. Os números oficiais indicam que a área florestal chinesa tem aumentado há décadas.
Contudo, basta atravessar as regiões afectadas para perceber depressa que, por trás dos anúncios triunfais, existe uma realidade mais áspera. Monoculturas de pinheiros ou choupos erguem-se como soldados em fileiras. Muitas dessas espécies nem sequer são nativas destes locais. Consomem uma água já escassa e criam raízes em solos que se assemelham mais a pó do que a terra. Aqui, «restauração» significa muitas vezes plantar algo que pareça verde à distância.
Uma aldeia da Mongólia Interior tornou-se um símbolo deste problema. Antes, grandes rebanhos de ovelhas e cabras pastavam numa estepe pobre, mas explorada segundo práticas tradicionais. Depois chegaram os funcionários com mapas e instrumentos de medição. As áreas classificadas como «degradadas» foram vedadas, os agricultores receberam pequenas compensações e regras rigorosas. Quem abrir as vedações arrisca-se a uma multa.
Uma agricultora idosa conta que, antigamente, o marido levava as ovelhas para vales mais baixos na primavera e regressava à estepe no outono. Hoje, há postes de betão a bloquear a passagem. «Antes tínhamos medo da areia; agora temos medo da polícia», afirma. Os rebanhos diminuíram e os jovens partiram para as cidades à procura de emprego. Para estas pessoas, a nova «floresta» é mais uma zona interditada do que uma protecção.
Os efeitos mensuráveis também se observam nos rios. Estudos registam a descida dos caudais em zonas de reflorestação intensiva. As florestas plantadas artificialmente com espécies sedentas, como os choupos, retiram água subterrânea antes de ela chegar a ribeiros e zonas húmidas. Em alguns vales, os rios correm actualmente apenas de forma sazonal ou deixaram de correr por completo. Aquilo que, visto do ar, parece um milagre pode ser sentido no terreno como uma dessecação lenta.
Porque se plantam, então, tantas árvores numa região que foi tradicionalmente pradaria? A explicação combina pressão política, indicadores simplistas e uma convicção profundamente enraizada: árvores = bom, deserto = mau. As autoridades precisam de resultados mensuráveis, e as fileiras de árvores são um sinal de progresso fotogénico. A ideia de que dunas e estepes podem ser ecossistemas frágeis, mas estáveis, não encaixa nesta narrativa.
Além disso, provar a restauração de pradarias é mais difícil e demora mais tempo. O pastoreio próximo da natureza, a protecção de zonas húmidas ou o incentivo a arbustos autóctones não produzem necessariamente um verde intenso nas imagens de satélite. Já uma longa linha de árvores é fácil de contar e de incluir em relatórios. As burocracias adoram indicadores simples, mesmo quando a ecologia fica de rastos.
Os investigadores criticam há anos que a «Grande Muralha Verde» é, em muitos locais, na realidade uma «papel de parede verde». São faixas estreitas de plantação, mal mantidas e frequentemente marcadas por elevadas perdas ao fim de poucos anos. Quando faltam períodos de chuva, milhares de árvores morrem em simultâneo, deixando para trás troncos cinzentos e raízes descoloradas. Uma parte dos enormes investimentos desaparece simplesmente na areia.
Para aprender com esta espiral, é preciso aceitar primeiro uma conclusão incómoda: nem todo o deserto é um erro, e nem toda a superfície despida espera por árvores. O primeiro passo consistiria em clarificar os conceitos. «Restauração» deveria significar devolver um ecossistema a um estado funcional, e não obrigá-lo a ser plantado. Nas regiões secas, isso pode passar por reforçar a estepe natural em vez de a transformar numa pseudo-floresta mediterrânica.
Na prática, seria necessário começar por observar com rigor. Que espécies crescem naturalmente neste lugar? Como viveram as populações nesta paisagem durante séculos sem a destruir por completo? Em partes do Norte da China, eram pastores nómadas, com rebanhos móveis, que evitavam o pisoteio permanente dos solos. Um programa moderno de restauração poderia apoiar-se nessas tradições, em vez de as descartar genericamente como «atrasadas».
Outra alavanca essencial é tratar os orçamentos de água com seriedade. Qualquer projecto de reflorestação em áreas secas necessita de um limite de água baseado em dados reais. Quanta precipitação ocorre por ano e que quantidade pode ser retida nas raízes sem sacrificar rios e zonas húmidas? Parece um assunto árido, mas é precisamente neste ponto que as grandes visões muitas vezes se desfazem. Quem quer travar os desertos tem primeiro de aprender a calcular a escassez, em vez de a ignorar.
Muitos projectos subestimam a tensão social. Quando se erguem vedações sem envolver as comunidades das aldeias, o ambiente degrada-se rapidamente. As pessoas percebem depressa quando a «salvação da natureza» é sobretudo imposta de cima para baixo. Todos conhecemos situações em que uma regra bem-intencionada passa subitamente a parecer uma punição. É assim que muitos agricultores vivem a nova política verde. Se as compensações chegam tarde ou são demasiado baixas, a confiança desaparece de vez.
Um erro recorrente é pedir conhecimento local apenas por formalidade. Convidam-se alguns anciãos da aldeia para um escritório, ouvem-nos durante uma hora, tiram uma fotografia e, no fim, aplicam na mesma o programa inicial. Sejamos honestos: ninguém participa voluntariamente todos os dias em intermináveis workshops de participação. Mas, sem uma intervenção real nas decisões, bons planos depressa se transformam em conflitos silenciosos que explodem anos mais tarde a um custo elevado.
«Antigamente, restauração era uma palavra técnica», diz um investigador ambiental chinês que prefere manter o anonimato. «Hoje, é um termo de luta política. Quem define o que está destruído - e o que conta como salvo?»
Neste debate, voltam a surgir alguns pontos centrais que também são relevantes para leitores muito longe do Gobi:
- As regiões secas precisam de diversidade, não de monoculturas.
- O verde nas imagens de satélite não prova a existência de ecossistemas vivos.
- As populações locais não são o problema: fazem parte da solução.
- Os rios e as águas subterrâneas são a moeda escondida de qualquer reflorestação.
- Objectivos políticos sem limites ecológicos conduzem a erros dispendiosos.
A realidade sóbria é que a China não está sozinha perante estes conflitos. De África a Espanha, estão actualmente a surgir enormes «corredores verdes», muitas vezes com as mesmas contradições. De um lado está o desejo de travar tempestades de areia e o caos climático. Do outro, pastores, agricultores e pequenas comunidades que sentem o seu quotidiano ser esmagado pelo discurso climático global. Talvez valha a pena uma breve inquietação silenciosa: quando chamamos «restauração» a algo que, na realidade, apenas impõe uma nova imagem da paisagem?
| Ponto-chave | Pormenor | Valor acrescentado para o leitor |
|---|---|---|
| Plantar árvores não é automaticamente positivo | As monoculturas em zonas secas agravam a escassez de água e ameaçam os meios de subsistência locais | Ajuda a reconhecer o branqueamento ecológico e a avaliar projectos ambientais complexos de forma mais crítica |
| Pensar na água como recurso limitado | A reflorestação sem um orçamento de água faz secar rios e colapsar zonas húmidas | Mostra porque a protecção do clima tem também de considerar a hidrologia |
| As pessoas como parte da paisagem | Os sistemas tradicionais de pastoreio e o conhecimento local podem estabilizar paisagens | Incentiva a considerar a justiça social e as práticas culturais nos debates ambientais |
Perguntas frequentes:
- Pergunta 1: Quantas árvores plantou aproximadamente a China no âmbito da «Grande Muralha Verde»? As estimativas apontam para mais de mil milhões de árvores, e algumas referem vários milhares de milhões, distribuídas por várias décadas e por uma área maior do que muitos Estados-Membros da UE juntos.
- Pergunta 2: Porque secam os rios apesar de crescerem mais árvores? Muitas espécies plantadas, como choupos e pinheiros, exigem muita água. Em regiões já secas, as suas raízes retiram água subterrânea que, de outro modo, chegaria a ribeiros e zonas húmidas.
- Pergunta 3: O próprio deserto não é automaticamente um problema? Não necessariamente. Os desertos e as estepes naturais são ecossistemas autónomos, com fauna e flora especializadas. O problema surge onde a sobreexploração e as alterações climáticas desequilibram o balanço natural.
- Pergunta 4: As populações locais beneficiam da reflorestação? Algumas recebem empregos nos programas de plantação e manutenção; outras perdem zonas de pastoreio ou acesso à água. O balanço varia muito e depende fortemente da aplicação local.
- Pergunta 5: Qual seria uma estratégia alternativa à reflorestação isolada? As opções vão da restauração de pradarias naturais e de sistemas de pastoreio rotativo à agricultura sensível à água e à protecção de formas tradicionais de uso do território, em vez de as proibir indiscriminadamente.
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