Embora os algoritmos de recomendação das redes sociais determinem em grande medida os conteúdos que consumimos, existe uma predisposição natural para os ajudarmos a tornar a nossa vida mais monótona do que ela é na realidade.
Ao abrirmos os nossos feeds no Instagram ou no TikTok, ou ao deslizarmos sem fim por shorts do YouTube, deparamo-nos com muitos conteúdos que transformam em normal aquilo que está fora do alcance da maioria das pessoas. Há influenciadores de desporto, de corpo musculado, a descansar na varanda de um hotel de quatro estrelas em Bali; paraquedistas a saltar do Burj Khalifa, no Dubai; celebridades a posar diante do Coliseu, a fotografar-se perante as auroras boreais na Islândia, ou nómadas digitais que mudam de carreira a cada seis meses e se instalam, invariavelmente, em lugares paradisíacos.
Quando desviamos os olhos desses vídeos, voltamos ao dia a dia: a rotina casa-trabalho-casa, a penosa segunda-feira que nos espera, marcada por reuniões intermináveis com cheiro a café morno, ou o carro que acabou de rebentar a segunda junta da cabeça do motor em seis meses. É a vida real, com os seus altos e baixos, que nos deixa com a amarga impressão de que as vidas exibidas nas redes sociais são melhores do que a nossa.
Redes sociais e a propagação do viés de raridade
Estamos a comparar elementos incomparáveis: trata-se de um viés cognitivo a que investigadores da Virginia Tech chamaram «rareness bias diffusion», num estudo publicado em 28 de janeiro de 2026 na revista MIS Quarterly. O conceito pode ser traduzido como «a propagação do viés de raridade». Quanto mais extrema ou extraordinária for a experiência retratada num conteúdo, maior será a probabilidade de ser partilhada e promovida pelos algoritmos, acabando por nos levar a encarar o excecional como se fosse habitual. É perigoso para as crianças e, em certos aspetos, tóxico para os adultos: as redes sociais funcionam a todo o vapor graças à nossa insatisfação e frustração.
A produção industrial do sentimento de insuficiência
Alice Jang, professora de sistemas de informação, e Viswanath Venkatesh, titular da cátedra do mesmo departamento, realizaram seis experiências para perceber de que forma decidimos o que partilhamos online e como essa escolha, por sua vez, distorce a nossa perceção da realidade. No respetivo protocolo, os participantes foram colocados perante um cenário fictício em que monstros atacavam uma cidade distópica. Os investigadores repetiam algumas dessas criaturas muito mais vezes do que outras e perguntavam depois aos participantes quais escolheriam publicar numa rede social. No momento da partilha online, escolhiam sempre aquelas que tinham visto menos vezes.
Para confirmar se este viés individual se mantinha numa escala mais ampla, os investigadores criaram uma rede social fictícia com milhares de utilizadores igualmente fictícios. Cada um estava programado para partilhar conteúdos de acordo com as preferências identificadas nos participantes reais. O resultado foi o mesmo, mas mais intenso: os conteúdos raros passaram a dominar o feed de toda a rede.
Na prática, o nosso cérebro está biologicamente orientado para procurar novidade, enquanto a necessidade de validação social nos leva a divulgar antes de mais aquilo que provoca uma forte ativação emocional. São dois impulsos naturais que, ao manifestarem-se coletivamente no universo digital, eliminam o comum dos nossos ecrãs, deixando passar apenas um concentrado de exceções, convertido numa norma inteiramente artificial.
«As pessoas imaginam que toda a gente está de viagem em Paris ou vive coisas extraordinárias, enquanto elas ficam em casa às voltas», afirma Jang. «Isso dá a sensação de que estão a perder a própria vida quando, na realidade, a maioria das pessoas leva uma vida perfeitamente normal e limita-se a publicar os momentos altos», continua.
Quando o próprio utilizador distorce a realidade
É claro que os algoritmos das plataformas estão afinados para amplificar esta grande miragem coletiva que ajudaram a criar, já que todo o seu modelo económico assenta na economia da atenção. Ainda assim, Jang e Venkatesh mostram que também somos nós a contribuir para o problema. Antes de qualquer recomendação algorítmica, participamos na deformação do real, porque a primeira seleção da realidade é humana, não informática.
«É um viés que simplesmente não conseguimos corrigir. É impossível de corrigir», reconhece Jang, acrescentando que «a literatura científica anterior ignora em grande medida este facto e assume que as pessoas são racionais». Embora Venkatesh defenda que podemos atenuar o impacto negativo deste viés ao reconhecermos que as redes sociais nos devolvem uma imagem deformada da realidade, convém admitir que o conselho perde alguma eficácia.
A consciência não basta para evitar a comparação
Se bastasse saber que um veneno é perigoso para nos afastarmos dele, há muito que teríamos eliminado das nossas vidas, por exemplo, o tabaco, o álcool, o açúcar refinado, as relações tóxicas, a fast fashion ou a junk food. É possível estabelecer os mesmos paralelos com a nossa tendência para nos deixarmos abater pelos êxitos dos outros, apesar de sabermos o quão artificiais podem ser. A lucidez é uma fraca defesa contra a dissonância cognitiva: talvez impeça a ignorância total, mas não nos torna imunes às nossas próprias fragilidades. Afinal, o filósofo Emil Cioran já escrevia, em 1949, no ensaio Précis de décomposition: «Viver significa: acreditar e esperar, mentir e mentir a si próprio.» Uma condição humana irreprimível à qual as redes sociais nada acrescentaram, exceto um ecrã para a observar setenta vezes por dia.
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