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A arqueologia na Estação Espacial Internacional revela a vida em microgravidade

Astronauta dentro de uma estação espacial, olhando pela janela para a Terra enquanto segura um lápis.

Novos resultados do primeiro trabalho de campo arqueológico realizado no espaço mostram que a Estação Espacial Internacional constitui uma paisagem cultural rica, na qual as tripulações criam a sua própria «gravidade» para substituir a da Terra e adaptam os espaços dos módulos às suas necessidades.

Habitualmente associada ao estudo de um passado remoto, a arqueologia é particularmente adequada para revelar a forma como as pessoas se ajustam a missões espaciais de longa duração.

No ensaio SQuARE, apresentado no nosso novo artigo na PLOS ONE, adaptámos para utilização no espaço um método arqueológico clássico e pedimos aos astronautas que o aplicassem por nós.

Arqueologia… no… espaaaaaço!

A Estação Espacial Internacional é o primeiro povoamento humano permanente no espaço. Nos últimos 23 anos, foi visitada por cerca de 280 pessoas.

A nossa equipa estudou exposições de fotografias, ícones religiosos e obras de arte produzidas por tripulantes de diferentes países. Analisámos também a carga devolvida à Terra e recorremos ao arquivo histórico de fotografias da NASA para examinar as relações entre membros de tripulações que trabalham em conjunto.

Investigámos ainda tecnologias simples - como o velcro e os sacos de plástico com fecho reutilizável - usadas pelos astronautas para recriar o efeito terrestre da gravidade num ambiente de microgravidade. Estes recursos permitem deixar os objectos onde foram colocados, impedindo que flutuem.

Mais recentemente, reunimos dados sobre a utilização de objectos no interior da estação espacial, adaptando uma das técnicas mais tradicionais da arqueologia: a «sondagem de teste».

Na Terra, depois de identificado um sítio arqueológico, estabelece-se uma grelha de quadrados com um metro de lado e alguns deles são escavados como «sondagens de teste». Estas amostras permitem obter uma noção do sítio no seu conjunto.

Em Janeiro de 2022, pedimos à tripulação da estação espacial que delimitasse cinco áreas de amostragem aproximadamente quadradas. Seleccionámos locais que incluíssem zonas de trabalho, ciência, exercício e lazer. A tripulação escolheu também uma sexta área, com base na sua própria ideia sobre o que seria interessante observar. O nosso estudo foi patrocinado pelo Laboratório Nacional da Estação Espacial Internacional.

Durante 60 dias, a tripulação fotografou diariamente cada quadrado, documentando os objectos existentes dentro dos seus limites. Tudo na cultura espacial tem uma sigla, pelo que chamámos a esta actividade Experiência de Investigação de Conjuntos de Quadrantes de Amostragem, ou SQuARE.

As fotografias resultantes revelam a riqueza da paisagem cultural da estação espacial, mas demonstram igualmente quão distante está a vida no espaço das imagens criadas pela imaginação da ficção científica.

A estação espacial está cheia de objectos, é caótica, apertada e suja. Não existem fronteiras entre os lugares onde a tripulação trabalha e aqueles onde descansa. A privacidade é escassa ou inexistente. Nem sequer há um chuveiro.

O que observámos nos quadrados da Estação Espacial Internacional

Podemos agora apresentar os resultados da análise dos dois primeiros quadrados. Um situava-se no módulo norte-americano Node 2, onde existem quatro camarotes para a tripulação e ligações aos laboratórios europeu e japonês. As naves visitantes acoplam frequentemente neste local.

O nosso alvo era uma parede onde se encontra a Área de Trabalho de Manutenção, ou MWA. Nela existe um painel metálico azul com 40 quadrados de velcro e, por baixo, uma mesa destinada à reparação de equipamento ou à realização de experiências.

A NASA previa que esta área fosse usada para manutenção. Contudo, encontrámos poucos indícios de actividades de manutenção e apenas um pequeno número de actividades científicas. De facto, em 50 dos 60 dias abrangidos pela nossa observação, o quadrado serviu exclusivamente para guardar objectos que poderiam nem sequer ter sido utilizados naquele local.

A quantidade de velcro disponível tornava este ponto ideal para armazenamento improvisado. Quase metade de todos os artigos registados (44%) estava relacionada com a fixação de outros objectos.

O outro quadrado cuja análise concluímos encontrava-se no módulo norte-americano Node 3, onde estão instaladas máquinas de exercício e a casa de banho. É também uma passagem para a parte preferida da estação espacial pela tripulação - a janela Cupola, de sete lados - e para os módulos de armazenamento.

Esta parede não tinha uma função atribuída, pelo que foi utilizada para fins diversos, incluindo guardar um computador portátil, uma experiência antibacteriana e sacos com fecho reutilizável. Além disso, durante 52 dias do SQuARE, foi o local onde um membro da tripulação manteve o seu nécessaire.

É, de certa forma, lógico colocar os artigos de higiene perto da casa de banho e das máquinas de exercício que cada astronauta utiliza durante horas todos os dias. Porém, trata-se de um espaço muito público, onde outras pessoas passam constantemente. A localização do nécessaire evidencia a insuficiência das instalações destinadas à higiene e à privacidade.

O que significam estes resultados?

A análise dos Quadrados 03 e 05 ajudou-nos a compreender de que modo sistemas de fixação, como o velcro, criam uma espécie de gravidade transitória.

Os sistemas de fixação utilizados para prender um objecto formam uma zona de gravidade activa, enquanto os que não estão a ser usados representam gravidade potencial. A análise dos artefactos permite-nos saber quanta gravidade potencial está disponível em cada local.

O trabalho científico é o principal objectivo da estação espacial. Para o concretizar, os astronautas têm de mobilizar um grande número de objectos. O Quadrado 03 mostra como transformaram uma superfície destinada à manutenção numa espécie de ponto de passagem para vários artigos nas suas deslocações pela estação.

Os nossos dados indicam que os projectistas de futuras estações espaciais - como as estações comerciais actualmente planeadas para a órbita baixa da Terra ou a estação Gateway, em construção para a órbita lunar - poderão ter de atribuir maior prioridade ao armazenamento.

O Quadrado 05 revela como um espaço de parede público foi apropriado para armazenamento pessoal por um membro não identificado da tripulação. Já sabíamos que as condições de privacidade estão longe de ser ideais, mas a permanência do nécessaire naquele local demonstra como a tripulação adapta os espaços para compensar essa limitação.

O que torna as nossas conclusões relevantes é o facto de assentarem em provas. A análise dos dois primeiros quadrados sugere que os dados dos seis proporcionarão mais informações sobre o habitat espacial humano que sobreviveu durante mais tempo.

Os planos actuais preveem retirar a estação espacial de órbita em 2031, pelo que esta experiência poderá ser a única oportunidade de recolher dados arqueológicos.


Os autores agradecem o trabalho dos nossos colaboradores Shawn Graham, Chantal Brousseau e Salma Abdullah.

Justin St. P. Walsh, Professor de História da Arte, Arqueologia e Estudos Espaciais, Chapman University, e Alice Gorman, Professora Associada de Arqueologia e Estudos Espaciais, Flinders University

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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