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Rapamicina pode prolongar a fertilidade feminina até cinco anos

Mulher médica sorridente segura modelo do útero em consultório com ecografia e medicamentos na mesa.

Cada vez mais pessoas optam por adiar a decisão de ter filhos. Embora existam muitas razões para o fazer, cerca de um terço dos casais terá dificuldades em conseguir uma gravidez quando a parceira tem mais de 35 anos, pois a fertilidade feminina começa a diminuir por volta dessa idade.

No entanto, os investigadores de um ensaio clínico em curso defendem que a rapamicina, um medicamento habitualmente utilizado para evitar a rejeição de transplantes de órgãos, poderá prolongar o período fértil de uma mulher até cinco anos.

Esta hipótese assenta na divulgação preliminar dos resultados de um pequeno estudo-piloto realizado pela equipa, que ainda não foi sujeito a revisão por pares.

Ainda é cedo para concluir se a rapamicina poderá vir a integrar o futuro dos tratamentos de fertilidade: será necessário esperar mais dois anos até à conclusão do ensaio clínico. Apesar disso, os resultados comunicados dão alguns motivos para optimismo.

Vários estudos realizados em ratinhos já demonstraram que a rapamicina pode beneficiar diversos aspectos do envelhecimento, incluindo a fertilidade.

Reserva ovárica e fertilidade feminina

A fertilidade futura pode começar a definir-se antes do nascimento. No útero materno, os gâmetas femininos - os óvulos - são rodeados, nos ovários, por células especializadas que formam "folículos primordiais". Cada folículo alberga um único óvulo, que permanece inactivo até ser seleccionado para utilização na puberdade.

Muitos folículos morrem ainda antes do nascimento. Assim, cada mulher nasce com todos os folículos que alguma vez terá, um conjunto conhecido como "reserva ovárica". Esta reserva, estabelecida tão cedo, pode influenciar a capacidade de engravidar ao longo de toda a vida reprodutiva.

Em cada ciclo menstrual, são seleccionadas várias dezenas de folículos, mas só um folículo dominante libertará o seu óvulo para ser fecundado. Os restantes folículos recrutados são degradados pelo ovário.

Com o avançar da idade, a reserva ovárica reduz-se, até restar apenas um número limitado de folículos de boa qualidade. Nessa fase, diminuem algumas hormonas ováricas que circulam no organismo, desencadeando a menopausa.

A idade média da menopausa é de 51 anos, embora possa variar consideravelmente entre mulheres em função da sua reserva ovárica. Algumas entram numa menopausa precoce, que ocorre antes dos 45 anos.

Cerca de 1% das mulheres pode mesmo ter menopausa prematura, isto é, antes dos 40 anos. Como a menopausa afecta directamente a fertilidade, uma menopausa antecipada pode alterar seriamente os planos de parentalidade de uma mulher.

Se fosse possível atrasar o envelhecimento ovárico, seria igualmente possível prolongar a fertilidade feminina. É precisamente esse o efeito que a rapamicina poderá conseguir.

Reutilizar a rapamicina

A rapamicina é um composto bacteriano que permite às células sobreviver durante mais tempo em condições laboratoriais.

É frequentemente administrada a doentes submetidos a transplantes de órgãos para suprimir o sistema imunitário e impedir que o organismo rejeite o novo órgão. Também é usada em determinadas doenças vasculares, ao abrandar o crescimento celular, como acontece nos tumores.

Há cada vez mais evidência de que a rapamicina também pode trazer benefícios relacionados com o envelhecimento.

Investigações em ratinhos indicam que consegue contrariar a perda de massa muscular associada à idade. Foi igualmente demonstrado que uma dose diária de rapamicina aumenta em 10% a longevidade de ratinhos mais velhos.

No campo da fertilidade, estudos revelaram que uma dose diária de rapamicina atrasa, em ratinhos, o envelhecimento dos ovários e a menopausa.

Ratinhos fêmeas mais velhos que receberam uma alimentação com rapamicina apresentaram um aumento do conjunto de folículos primordiais, ou seja, da reserva ovárica.

Além disso, estes ratinhos tiveram ninhadas bem-sucedidas em fases mais tardias da vida. Isto apontou para a possibilidade de a rapamicina poder atrasar a menopausa prematura nas mulheres.

Ensaio clínico com rapamicina em mulheres

Mas poderá o medicamento produzir o mesmo resultado em seres humanos? Foi essa a questão que uma equipa de investigação decidiu estudar. Para o estudo-piloto, foram recrutadas 50 mulheres entre os 35 e os 45 anos que se encontravam na perimenopausa.

Durante três meses, as participantes receberam uma dose semanal de rapamicina ou um placebo. A reserva ovárica foi acompanhada através de ecografia transvaginal e de várias análises sanguíneas destinadas a detectar diferentes hormonas ováricas.

Os investigadores afirmam que os resultados iniciais foram muito encorajadores, sugerindo que o fármaco poderá reduzir em 20% o envelhecimento ovárico nas mulheres, sem efeitos secundários associados ao medicamento. A equipa espera que isto possa traduzir-se em mais cinco anos de fertilidade.

A rapamicina poderá desencadear este efeito positivo ao limitar o número de folículos primordiais recrutados e activados em cada ciclo menstrual.

Nas mulheres que receberam rapamicina, foram recrutados apenas 15 folículos por ciclo menstrual, em comparação com 50 em mulheres de idade semelhante. Com menos recrutamento de folículos, a reserva ovárica parece ser prolongada.

Investigação anterior em ratinhos demonstrou que a rapamicina leva ao recrutamento de menos folículos, o que poderá conservar a reserva ovárica.

Preservar a fertilidade

A dimensão da coorte do estudo inicial foi relativamente pequena. Contudo, perante os resultados promissores que os investigadores dizem ter obtido, poderão agora avançar para a fase seguinte da experiência, recrutando 1 000 mulheres.

Espera-se que os resultados preliminares sejam confirmados e que um estudo revisto por pares demonstre que a rapamicina é um tratamento útil para o envelhecimento ovárico. Depois disso, serão necessários estudos adicionais para apurar se a fertilidade é efectivamente prolongada.

Se o ensaio clínico comprovar os benefícios da rapamicina, o medicamento poderá ajudar mulheres com baixa reserva ovárica e aquelas que pretendem prolongar a sua fertilidade.

Além disso, este estudo evidencia o potencial de reutilizar medicamentos já existentes para tratar outras doenças relacionadas com a saúde e o bem-estar das mulheres. É também esse o trabalho que eu e os membros da minha equipa desenvolvemos na Universidade de Central Lancashire.

Actualmente, estamos a investigar em células se a reutilização de medicamentos comuns para a diabetes pode melhorar o útero e facilitar a implantação de um embrião. Também estudamos estes alvos para o tratamento do cancro do ovário.

Stéphane Berneau, docente da Escola de Farmácia e Ciências Biomédicas, Universidade de Central Lancashire

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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